A vertigem, aquela sensação de que o ambiente está girando ou de que o próprio corpo está se movendo quando não está, é um dos sintomas que mais levam pessoas ao pronto-socorro. Na maioria das vezes, o diagnóstico vai para problemas do ouvido interno ou do sistema vestibular. E frequentemente é isso mesmo.

Mas há uma parcela de pacientes que vai ao otorrino, ao neurologista, faz exames e não encontra explicação. A tontura persiste, interfere no trabalho, dificulta dirigir. O que poucos médicos e dentistas comunicam claramente: a articulação temporomandibular pode ser uma fonte de tontura e vertigem.

A ATM e o sistema vestibular: qual é a conexão?

O equilíbrio corporal é mantido pela integração de três sistemas: visual, proprioceptivo (muscular e articular) e vestibular (ouvido interno). A ATM é uma das maiores articulações da face e contém abundante inervação proprioceptiva, ela contribui ativamente para o mapa corporal que o sistema nervoso central usa para manter o equilíbrio.

Quando a ATM funciona com disfunção, o sinal proprioceptivo que ela envia ao sistema nervoso central é alterado. Essa informação incorreta pode conflitar com os sinais do sistema vestibular e visual, gerando tontura ou instabilidade postural.

Além disso, pela proximidade anatômica com o ouvido interno e pelo compartilhamento de vias nervosas (especialmente o nervo auriculotemporal e o sistema trigeminal), alterações na ATM podem influenciar indiretamente a função vestibular.

Não é o mesmo que BPPV, e a diferença importa

O tipo mais comum de vertigem é a BPPV: vertigem posicional paroxística benigna. Ela ocorre quando cristais de carbonato de cálcio (otólitos) se desprendem do utrículo do ouvido interno e entram nos canais semicirculares, gerando vertigem ao mudar de posição.

A vertigem de origem mandibular tem características diferentes:

  • Não é posicional no mesmo sentido
  • Frequentemente se intensifica com a mastigação, o apertamento dos dentes ou movimentos da mandíbula
  • É acompanhada de outros sintomas de DTM: dor facial, estalos na articulação, tensão muscular
  • Pode vir junto com zumbido e/ou sensação de ouvido tampado
  • Audiometria e exame neurológico são normais

O BPPV é tratado com manobras de reposicionamento (Epley), que não funcionam se a causa for mandibular.

Músculos mastigatórios e instabilidade postural

O músculo esternocleidomastoide, que fica na lateral do pescoço, fundamental para o equilíbrio da cabeça, tem relação funcional com a musculatura mastigatória. Alterações no padrão muscular mandibular podem se propagar para o segmento cervical e comprometer a estabilidade postural.

Pacientes com DTM frequentemente têm postura de cabeça anteriorizada (cabeça projetada à frente do eixo corporal), que sobrecarrega a musculatura cervical e pode contribuir para tontura por comprometimento das informações proprioceptivas do pescoço.

O protocolo diagnóstico ideal

Etapa 1 — Otorrinolaringologista: avaliação auditiva completa, audiometria, vectoeletronistagmografia (VNG) para avaliar o sistema vestibular. Descarta BPPV, neurite vestibular, hidropisia endolinfática (doença de Ménière) e outras causas otológicas.

Etapa 2 — Neurologista (quando indicado): descarta causas centrais de vertigem (AVC, tumores, esclerose múltipla).

Etapa 3 — Dentista especialista em DTM: se os exames anteriores não encontrarem causa, avalia a ATM, a oclusão e a musculatura mastigatória. Quando há sinais de DTM, o tratamento odontológico pode ser indicado.

Tratamento

  • Placa oclusal: reduz a sobrecarga da ATM e a hipertensão muscular que alimenta o sinal proprioceptivo alterado
  • Fisioterapia orofacial e fisioterapia vestibular: combinação de liberação miofascial com exercícios de reabilitação vestibular
  • Toxina botulínica: em casos de hiperatividade muscular severa
  • Ajuste oclusal e reabilitação protética: quando há perda de dentes posteriores como fator de sobrecarga da ATM

Perguntas frequentes

A mandíbula pode causar tontura? Sim, em parte dos pacientes. A DTM pode alterar os sinais proprioceptivos enviados ao sistema nervoso central e contribuir para tontura e instabilidade postural. Não é a causa mais comum de vertigem, mas é uma causa subestimada e tratável.

Como saber se minha tontura é da mandíbula? Se a tontura piora ao mastigar, ao apertar os dentes ou com movimentos mandibulares, e se é acompanhada de outros sintomas de DTM, a origem mandibular deve ser investigada, especialmente se exames neurológicos e vestibulares foram normais.

Dentista pode tratar tontura? Quando a tontura tem componente mandibular associado à DTM, sim. O tratamento pelo dentista especialista pode incluir placa oclusal, ajuste da mordida e toxina botulínica.

A tontura some completamente com o tratamento da DTM? Depende da extensão do componente mandibular. Em casos com DTM como causa principal, o tratamento pode reduzir ou eliminar o sintoma.


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